Existência de Deus - algo possível

 A - Ao analisar a realidade observável:

1 - A maior probabilidade é a de que Deus não existe ou não é necessário;

2 - A maior probabilidade é a de que Deus existe por ser necessário, inclusive;


Ajuste Fino: A Ciência descobre Deus - Ariel A. Roth - pg 56 - Edição de 2010

Matéria: "Por exemplo, se a massa do próton fosse diferente em apenas uma parte em mil, não haveria átomos ou elementos."

Carbono: "Se esse nível de ressonância [para favorecer sua ocorrência] tivesse sido 4% menor ou se o de oxigênio fosse apenas 1% maior, virtualmente não haveria carbono."

Sol: "Se o sol estivesse apenas 5% mais próximo ou 1% mais distante da Terra, isso eliminaria toda a vida de nosso planeta."

Força nuclear forte: "Se essa força fosse 2% mais forte, nós não teríamos hidrogênio e, consequentemente, nem Sol, nem água, nem vida. Se ela fosse 5% mais fraca, teríamos apenas hidrogênio, e nada mais."

Força nuclear fraca: "Se essa força fosse levemente mais forte, o hélio não se formaria. Se fosse levemente mais fraca, não sobraria nada de hidrogênio no Sol."

Força eletromagnética: "Se ela fosse um pouquinho mais forte, estrelas como o nosso Sol seriam vermelhas e muito mais frias. Se fosse um pouquinho mais fraca, as estrelas seriam azuis e teriam vida extremamente curta."

Gravidade: "A relação precisa entre a força da gravidade e a da força eletromagnética é extremamente crítica. Se qualquer dessas forças tivesse uma minúscula variação, isso seria desastroso para estrelas como o nosso Sol."

B - Dada a improbabilidade da existência do Universo espontaneamente, sem um Ser inteligente planejando e desenvolvendo:

1 - A solução mais provável é a de que Deus existe, e criou um Universo capaz de gerar vida espontaneamente;

2 - 1 - A solução mais provável é a de que Deus existe, e criou um Universo que não é capaz de gerar vida espontaneamente;


C - O Universo não é capaz de gerar vida espontaneamente, visto que as improbabilidades do surgimento da vida desta forma mostram isso:

1 - A solução mais provável é a de que Deus existe, e criou a vida capaz de gerar mais vida  e gerar uma infinidade de outras vidas espontaneamente, desenvolvendo-se de uma protocélula ao ser humano;

2 - 1 - A solução mais provável é a de que Deus existe, e criou a vida que é capaz de gerar mais vida espontaneamente, mas com limitações - haverá variações entre caninos, felinos, primatas, humanos, mas uma célula/protocélula não se transforma em uma bactéria ou vírus, ou qualquer outro ser que se desenvolva e se transforme em um peixe, mamífero, réptil.


D - Este Ser teria criado o Universo com seu ajuste fino e os seres vivos com capacidade limitada de variabilidade biológica.


E - Sua existência é independente do conceito de bom e mau: sendo um Ser que possa ser considerado bom ou mau, se precisa existir, tal condição é, ao menos a princípio, indiferente.


F - O Universo e os seres vivos mostram um Ser infinitamente: inteligente, capaz de planejar o que existe em uma linha de complexidade inimaginável; poderoso, capaz de executar toda essa complexidade.


G - Se o Universo vai da ordem para a desordem, ao menos via de regra, e se os seres vivos tendem à degradação/degeneração genética:

1 - Tal Ser é altamente inteligente e capaz, mas ainda não possui todo o conhecimento e capacidade necessários para um universo que um dia não seja extinto e vida que não se degrade geneticamente;

2 - Tal ser é capaz de gerar um Universo que não seja extinto e vida que não se degrade geneticamente, mas há outros fatores envolvidos (outros seres com capacidade de alteração das condições do Universo e dos seres vivos). Com relação ao Universo, haveria algo além, mas no caso da vida, se o ser humano resolve atuar de forma errada com seu próprio corpo e com o planeta e as formas de vida existentes, isso pode alterar sua própria expectativa de vida, trazer desequilíbrio genético para ele e para os outros seres vivos.


H - Deus cria os seres, inclusive os humanos:

1 - Deixa-os à própria sorte, sem se manifestar a eles: o ser humano, com a capacidade de raciocínio, começa a perceber que para que haja outro ser vivo, é necessário que haja um anterior (vida provém de vida), e conclui que os seres vivos vieram de algum ou alguns outros seres vivos, independente de como e onde isso exista ou tenha acontecido. 

Passa-se a tentar entender como este Ser é, e começa-se a tentar explicar Suas ações e características pela realidade observável.

2 - Se relaciona com eles visivelmente e de modo positivo (para beneficiar tais seres), mas gradativamente diminui a intensidade de relacionamento visível, e esta gradação leva a revoltas e deturpações de Seu caráter. No entanto, vez ou outra, e de acordo com o nível de comprometimento humano, Ele se apresenta de modo mais evidente, e para os outros resta acreditar que Ele se importa pela fé (por eventos ocorridos no planeta, com as pessoas, etc).

3 - Se relaciona com eles visivelmente e de modo negativo (para prejudicar tais seres), tal relacionamento gera revoltas, mas também medo e ações de culto para aplacar Sua ação negativa.


https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/20/ciencia/1553072411_333560.html



1 - Deus existe? Mito ou realidade? - J. Miguel Arcanjo

Como os homens chegaram a deus

Estudo mostra que ideia da deidade moral aparece depois que os homens deixaram a tribo


"A crença no sobrenatural é tão antiga como os humanos. Mas a ideia de um ser onisciente vigilante da moral é mais recente. Antes das revoluções neolíticas, do surgimento da agricultura e das primeiras sociedades, os humanos viviam em grupos relativamente pequenos, baseados no parentesco. Na tribo, todos se conheciam e devia ser difícil ter uma conduta antissocial sem ser flagrado. O risco de ser apontado, castigado ou expulso do grupo bastava para controlar o indivíduo. Mas, à medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, as relações com estranhos ao clã cresciam e, ao mesmo tempo, as possibilidades de escapar à sanção. Para muitos estudiosos das religiões, a aparição de um deus moral que tudo vê serviu como cola para a coesão social, facilitando a emergência de sociedades cada vez maiores.
As primeiras ideias de um deus moral surgem no antigo Egito, com a figura de Maat, a filha do deus Rá. Isso foi por volta de 2800 antes da era atual, vários séculos depois da unificação das primeiras cidades do vale do Nilo. Segue-a na lista cronológica Shamash, o deus-sol que tudo vê, do Império Acádio, meio milênio posterior ao surgimento das civilizações mesopotâmicas. O mesmo padrão se observa com a deidade chinesa Tian e os diversos deuses do Império Hitita, na Anatólia (atual Turquia). Já no primeiro milênio antes da era atual apareceram o masdaísmo (ou zoroastrismo), o judaísmo e, já na era atual, o cristianismo e o islamismo. Todas são religiões com deuses morais surgidas ou evoluídas em sociedades já consolidadas.
Os sacrifícios e as normas de gênero dos astecas parecem centradas mais na manutenção [de uma ordem] universal e na melhora individual que no estabelecimento de costumes religiosamente controlados no qual alguns deuses moralizantes ameaçam punir as ações interpessoais impróprias”, comenta o arqueólogo Alan Covey, da Universidade do Texas, coautor do estudo. “Os textos maias parecem mostrar, ao menos no âmbito dos reis, que as razias e os sacrifícios humanos eram eventos memoráveis, e não atos pelos quais se pudesse temer uma desaprovação moral sobrenatural”, acrescenta esse arqueólogo especialista nos impérios pré-colombianos, em particular o inca. “Isto se encaixa com os traços gerais da visão do mundo andina e as práticas de sacrifícios locais e estatais do Império inca”, conclui.
O diretor do Instituto para a Ciência da História Humana (em Jena, Alemanha), o biólogo evolutivo Russell Gray, argumenta que “as provas de deuses moralizantes são difíceis de encontrar antes da invenção da escrita, mas isso não significa que não haja nenhuma. Os primeiros escritos eram principalmente documentos sobre transações financeiras, não sobre crenças religiosas”, acrescenta. Gray, que não participou do estudo, é um dos maiores defensores de que o castigo divino entendido em um sentido amplo é um precursor da complexidade política e social. Entretanto, reconhece que “os deuses morais são uma criação relativamente recente”."

"O que é mito? Antes de possíveis definições acadêmicas que possam vir a ser apresentadas é mister traçar linhas que nos mostrem como surgiu (e surge) o conceito de mito no coração e mente humana. [2]“O mito é basicamente uma reação do homem perante tudo aquilo que ele não consegue explicar e lhe causa alguma espécie de temor. Quando o homem primitivo vislumbra o relâmpago, ele percebe que está impotente para explicar aquele fenômeno e que não tem como controlá-lo de forma natural, assim sendo ele assume que aquilo que ele viu (no caso o relâmpago) ou é um ser muito mais poderoso que ele ou é a manifestação direta desse ser. Assim sendo, o reverencia, por temer que tal divindade se volte contra ele."


"Em outros termos, mito é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, quando com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser"


"Definição: Num sentido amplo, ateísmo é a ausência de crença na existência de divindades. O ateísmo é oposto ao teísmo que, em sua forma mais geral, é a crença de que existe, ao menos, uma divindade. O termo ateísmo, proveniente do grego clássico ἄèåïò (romaniz: atheos), que significa "sem Deus", foi aplicado com uma conotação negativa àqueles que se pensava rejeitarem os deuses adorados pela maioria da sociedade. Com a difusão do pensamento livre, do ceticismo científico e do consequente aumento da crítica à religião, a abrangência da aplicação do termo foi reduzida. Os primeiros indivíduos a identificarem-se como "ateus" surgiram no século XVIII."


"Agnosticismo é a visão filosófica de que a veracidade de certas reivindicações é desconhecida ou incognoscível. A palavra "agnóstico" vem do grego: “a-gnostos”, ou seja, não— conhecimento, aquele que não conhece. Para um agnóstico, a razão humana é incapaz de prover fundamentos racionais suficientes para justificar tanto a afirmação de que uma divindade existe quanto a afirmação de que uma divindade não existe. Na medida em que se defende que as crenças são racionais se forem suficientemente apoiadas pela razão humana, a pessoa que aceita a posição filosófica de agnosticismo terá o entendimento de que nem a afirmação de que uma divindade existe, nem a afirmação de que uma divindade não existe são racionais."



2 - A Caixa Preta de Darwin - Michael Behe


"Em seu sentido mais conhecido, biológico, evolução significa um processo por meio do qual a vida surgiu de matéria não-viva e, mais tarde, desenvolveu-se inteiramente por meios naturais. Esse é o sentido que Darwin deu à palavra, e o mesmo que conserva na comunidade científica. E é a acepção em que usamos a palavra evolução em todo este livro."

"Desejo deixar claro que não tenho motivos para duvidar que o universo tem os bilhões de anos de idade que os físicos alegam. Acho a ideia de ascendência comum (que todos os organismos tiveram um mesmo ancestral) muito convincente e não tenho nenhuma razão particular para pô-la em dúvida."

"Mas, como deixaremos claro mais tarde, se pesquisamos a literatura científica sobre evolução, e se concentramos a pesquisa na questão de como surgiram as máquinas moleculares a base da vida descobrimos que paira um silêncio total e misterioso em tomo do assunto. A complexidade dos alicerces da vida paralisou as tentativas da ciência de explicá-la; as máquinas moleculares como que erguem uma barreira ainda impenetrável ao alcance universal do darwinismo."




3 - O Delírio de Dawkins - Alister e Joanna McGrath


"...no discurso ateísta de Dawkins e de outros escritores...Não é suficiente argumentar que a ciência não descobriu nenhum indício sobre a existência de qualquer realidade que não seja a natural. Agora é necessário afirmar que a ciência é a única ferramenta adequada para observar a realidade e que todo sistema metafísico ou religioso é terminantemente pernicioso e deve ser abolido da sociedade."


"Eu não acreditava em Deus até ir à universidade. Aqueles que usam o argumento da infantilidade devem explicar por que tantas pessoas descobrem Deus mais tarde na vida, e certamente não acreditam que isso represente algum tipo de regressão, perversão ou degeneração. Um bom exemplo recente é o de Anthony Flew (nascido em 1923), o notável filósofo ateu que passou a crer em Deus aos 81 anos de idade."



4 - Antevidência - Marcos Eberlin


" Rompa a membrana de uma célula viva, expondo-a para o ar, e você verá o grande estrago que o O2 e vários outros invasores quımicos farão à célula perfurada. Seria morte certa e inevitável. Do ponto de vista da engenharia, foi, então, essencial proteger a célula, a unidade mais básica da vida. E a solução encontrada foi simplesmente genial: rodeou-se a célula – desde o seu “nascimento” – com um resistente escudo químico."

"...não haveria como uma célula sobreviver muitas gerações, nem mesmo uma só, esperando que esses canais estivessem prontos, se instalassem e funcionassem bem."


"Então, a questão principal é esta: como as primeiras células adquiriram membranas apropriadas e como teriam, simultaneamente, “coevoluído ” canais proteicos funcionais necessários para superar o dilema da permeabilidade? Até mesmos alguns evolucionistas convictos têm confessado a enorme dificuldade dessa questão. Sheref Mansy e colaboradores assim descreveram o problema na revista científica Nature: “A função das membranas como barreiras robustas tem dificultado muito o entendimento da origem da vida celular" 1.

[Mansy, Sheref S. et al. Template-directed synthesis of a genetic polymer in a model protocell. Nature, v. 454, p. 122-125, 2008. DOI 10.1038/nature]

[https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18528332/]

[https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2743009/]

Síntese dirigida por modelo de um polímero genético em uma protocélula modelo

"A forte função de barreira das membranas tornou difícil entender a origem da vida celular e foi pensado para impedir um estilo de vida heterotrófico para células primitivas."


"Mansy e colaboradores foram bastante modestos nessa sua a afirmação. De alguma forma, uma membrana – de camada dupla, flexível, estável e resistente - teria que ser arquitetada. E essa membrana deveria de pronto se estruturar e proteger eficientemente a célula da permeação devastadora de O2, enquanto se mantinha estável em um meio ácido aquoso, sendo ainda capaz de resistir Às flutuações de temperatura e acidez (pH) do meio (figura 2). Para executar toas essas tarefas, esse escudo molecular das células precisaria também de um mecanismo que o fizesse sentira as mudanças de temperatura e Ph (2), para assim reagir de acordo, ajustando a sua composição química para manter a resistência da membrana ao longo de todas essas mudanças químicas e físicas.


Planejar e formar tal membrana celular – com suas muitas habilidades interligadas – também requereria um grande exército de biomoléculas especializadas. E, felizmente, toda essa sofisticação veio - como em um canivete suíço - na forma de uma classe de biomoléculas magnificamente arquitetadas: os fosfolipídios (figura 3).


"A estrutura de um fosfolipídio pode ser dividida em duas regiões principais com propriedades fısico-quı ́ micas opostas: a cabeça é polar e gosta de água (hidrofílica), mas sua cauda é apolar e detesta água (hidrofóbica). Essa dicotomia de “gostos por água” é crucial, pois permite um truque químico magnífico: na água, os lipídios se arranjam automaticamente, formando estruturas esféricas de camada dupla...A água fica dentro e fora da célula, mas essa mesma água que forma todo o meio é cuidadosamente expulsa do interior da membrana, que, assim, encapsula e protege a célula aquosa. Novamente, parece saltar aos olhos um poder causal - com a habilidade de antever - antecipou essa necessidade crucial, arquitetou, fez todos os cálculos de forças e interações e no final escolheu a solução perfeita."


5 - https://unusmundus.academiaabc2.org.br/sobre-a-prova-matematica-mais-ousada-da-existencia-de-deus/


ENSAIO

Sobre a prova matemática mais ousada da existência de Deus

Walter Carnielli|

01/12/2023

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Walter Carnielli

Graduado e licenciado em Matemática, especialização em Filosofia da Ciência, mestrado em Matemática, e doutorado em Matemática pela Universidade Estadual de Campinas. Pós-doutorado pela University of California, pela Universitat Munster (Westfalische-Wilhelms) e pela Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn, como bolsita da Fundação Alexander von Humboldt. Atualmente é Professor Titular do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas, e editor e membro do corpo editorial de diversas revistas científicas.

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Como citar

Carnielli, Walter. Sobre a prova matemática mais ousada da existência de Deus. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 2, jul-dez, 2023.

Contra e a favor, sempre

A

existência, ou inexistência de Deus, e no caso positivo sua unicidade, tem incendiado a imaginação de muita gente há séculos. Há inúmeros argumentos favoráveis e contrários à existência de Deus no curso da história da filosofia e da teologia. Uma tradição desde Aristóteles afirma que o conhecimento de Deus pode ser obtido através de processos naturais de raciocínio, sem envolver experiências pessoais com o divino ou transcendente caracterizadas por revelação, como a Bíblia, ou epifanias de algum tipo, por exemplo.

Minha intenção aqui não é avaliar cada argumento a favor ou contra, mas preparar o leitor para a prova matemática que considero ser a mais sofisticada até hoje: a prova teológica proposta pelo lógico e matemático Kurt Gödel em 1940, que ajudará a compreender limites da relação entre fé e razão.

Alguns dos principais argumentos que pretendem provar a existência de Deus são os seguintes:

  1. Argumento Cosmológico: este argumento advoga que a existência do universo requer uma causa ou explicação, frequentemente referida como a “Causa Primeira” ou “Causa Incausada”. Essa causa primeira é considerada Deus. Duas versões famosas deste argumento são o argumento cosmológico de Kalam e o argumento da contingência.¹
  1. Argumento Teleológico: uma das suas versões recentes é conhecida como argumento do “design”, ou projeto. Este argumento alega que a complexidade e o propósito observados no mundo natural implicam a existência de um projetista (designer) inteligente, ou seja, Deus.
  1. Argumento Moral: este argumento alega que valores e deveres morais objetivos requerem um legislador moral, frequentemente identificado como Deus. Argumenta-se que a existência de uma fonte transcendente para a moral é mais bem explicada por um ser divino. Este tipo de argumento é explorado, contra e a favor, por Immanuel Kant.²
  1. Argumentos Probabilísticos: a partir da segunda metade do século 20, por influência principalmente das propostas de Alvin Plantinga e Richard Swinburne, a teologia analítica se reorientou, desviando-se das provas da existência (ou inexistência) de Deus para a questão de como raciocinar com evidências a favor e contra a existência de Deus.
 

Alvin Plantinga é um dos filósofos seminais da religião da segunda metade do século 20. Uma de suas contribuições mais distintivas e importantes para a filosofia da religião é sua afirmação de que argumentos não são necessários para a crença racional em Deus, mas mesmo assim defende que ainda existem muitos bons argumentos disponíveis.³

Richard Swinburne é conhecido por propor argumentos probabilísticos em favor da existência de Deus. Em seu The Existence of God, Swinburne tentou mostrar, usando argumentos indutivos por meio da aplicação do teorema de Bayes, que a existência de Deus é mais plausível do que a não existência.⁴ É bom deixar claro que não faltam críticas a tais propostas.

  1. Argumento Ontológico: é aquele que conclui que Deus existe a partir de premissas derivadas apenas da razão, não consequentes à observação do mundo. Este argumento, que é o que nos interessa, é uma tentativa lógica de provar a existência de Deus a partir de definições refinadas do conceito de Deus, alegando a existência de Deus como uma verdade necessária. A referência mais antiga é o argumento de Santo Anselmo.⁵
 

Argumentos contra a existência de Deus também proliferam; os mais conhecidos são:⁶

  1. Problema do Mal: este argumento afirma que a existência do mal e do sofrimento no mundo é incompatível com a ideia de um Deus onipotente, onisciente e perfeitamente bom; já que um Deus benevolente não permitiria tal sofrimento, Ele não poderia existir.
  1. Argumento da Incoerência: alguns críticos argumentam que o conceito de um Deus onipotente, onisciente e amoroso é internamente inconsistente e logicamente incoerente, levando a contradições dentro da lógica tradicional.
  1. Alguns críticos como Richard Dawkins, em Deus, um Delírio, alegam que argumentos como os cosmológicos e teleológicos funcionariam em razão de lacunas no conhecimento científico, de tal forma que avanços na ciência diminuíram a necessidade e o interesse de uma explicação divina para vários fenômenos (vale a pena ver também).⁷
 

Um tipo de argumentação mais sociológica ou antropológica, e menos lógica ou filosófica, seria que a diversidade de crenças religiosas e a ausência de uma experiência religiosa única e universal enfraqueceriam qualquer argumento em favor da existência de um Deus único e abrangente, que então não teria sentido.

O teólogo e filósofo Anselmo de Cantuária (1033-1109), no início do último milênio, já havia imaginado um criativo argumento sobre a divina existência, descrevendo Deus como um ser além do qual nada maior pode ser pensado, ou seja, a maior coisa que se pode imaginar. Desse modo, é possível racionalmente considerar a existência de Deus por contradição. Suponhamos que Deus não exista; então, se poderia imaginar algo maior, a saber, um ser além do qual nada maior pode ser contemplado. No entanto, esse ser, se existe, exibe uma propriedade de máxima grandeza. Isso é, então, um absurdo: nada pode ser maior do que a maior coisa que se pode imaginar. Portanto, a suposição de que Deus não existe deve estar errada: uma prova por redução ao absurdo. Apesar de criativo, esse argumento não é plenamente aceitável – há uma grande gama de críticas a Anselmo advindas das mais variadas vertentes filosóficas.

As mais imediatas são do tipo da crítica levantada por um contemporâneo de Anselmo, o monge Gaunilo de Marmoutier, de que o argumento de Anselmo poderia ser usado para mostrar a existência de todos os tipos de objetos inexistentes. Outra crítica famosa e bastante contundente é a de Immanuel Kant (1724-1804): será que realmente a existência é uma perfeição? Não seria melhor se o mal de Alzheimer não existisse?

Nos mil anos decorridos entre Anselmo e Gödel, muitos teólogos, filósofos, matemáticos e outros estudiosos criticaram, analisaram, modificaram e tentaram melhorar o argumento de Anselmo, desde Blaise Pascal, René Descartes e Baruch Spinoza (no século 17) até Gottfried Leibniz (no século 18).

René Descartes, em sua Quinta Meditação, defendeu um argumento semelhante ao de Anselmo,⁸ tentando derivar a existência de Deus a partir da ideia de um ser supremamente perfeito. Descartes argumenta que conceber um ser supremamente perfeito que carece de existência é tão contraditório quanto conceber um triângulo cujos ângulos internos não somem 180 graus. Portanto, como podemos conceber um ser supremamente perfeito, devemos concluir (evitando uma contradição) que um ser supremamente perfeito existe.

No início do século 18, Gottfried Leibniz levantou uma crítica contra a visão de Descartes. De acordo com Leibniz, os argumentos de Descartes falham a menos que se mostre primeiro que a ideia de um ser supremamente perfeito é coerente, ou que é possível que exista um ser supremamente perfeito. Leibniz argumentou que é impossível demonstrar que as perfeições podem ser analisadas ou separadas, e concluiu a partir disso que todas as perfeições podem coexistir juntas em uma única entidade. O problema seria então raciocinar com a ideia de perfeição, que não é analisável, e isso destruiria a tentativa de Descartes.

Por fim, Kurt Gödel, no século passado, cujos escritos sobre o tema com base no trabalho de Leibniz só vieram a público em 1987, teve a coragem, ou a insensatez, de subir nessa arena de gigantes filosóficos.

Leibniz argumentou que é impossível demonstrar que as perfeições podem ser analisadas ou separadas, e concluiu a partir disso que todas as perfeições podem coexistir juntas em uma única entidade.

Quem foi Kurt Gödel, e a revolução que ele provocou no conhecimento humano

Kurt Gödel foi um matemático austríaco nascido em 1906 e falecido em 1978, amigo e colega de Albert Einstein na Universidade de Princeton, amplamente considerado um dos matemáticos mais influentes do século 20, e mais conhecido por seus trabalhos em lógica matemática. Gödel é o responsável pelos celebérrimos Teoremas da Incompletude da Aritmética, que têm tirado o sono dos matemáticos, filósofos e todos os outros cientistas bem-informados desde 1931.

Gödel causou uma revolução na matemática e no conhecimento humano por meio de sua contribuição mais fundamental, o chamado Teorema de Incompletude, publicado em 1931. Esse teorema estabelece limites intransponíveis para o que é possível alcançar por meio de sistemas formais (como os axiomas da aritmética) em matemática: o resultado afirma que em qualquer sistema axiomático suficientemente complexo e capaz de expressar a aritmética, haverá proposições matemáticas que não podem ser provadas nem refutadas dentro desse sistema. Uma consequência deste resultado é conhecida como o “segundo teorema da incompletude de Gödel”, que afirma que qualquer teoria efetivamente gerada 𝑇 capaz de interpretar a aritmética de Peano prova a sua própria consistência se, e somente se, 𝑇 for inconsistente. Em outras palavras, uma tal teoria (incluindo a própria aritmética usual) ou é inconsistente ou, se for consistente, não consegue provar sua própria consistência. Apelando a uma paródia: ninguém consegue provar, de forma absoluta, sua própria sanidade mental — ou se trata de uma pessoa insana, se continuar tentando, ou racionalmente percebe que isso é impossível.

Isso demonstrou que a matemática é intrinsecamente incompleta, e abriu um novo campo de pesquisa em lógica e filosofia.

Gödel fez outras contribuições importantes à lógica matemática, incluindo o desenvolvimento da lógica modal e a definição da noção de recursão na computabilidade.⁹ Sua pesquisa teve um impacto profundo na maneira como os matemáticos e filósofos abordam a lógica e a fundamentação da matemática. Seu trabalho é considerado uma das realizações mais significativas na história da matemática e da filosofia do século 20.

Em 1949, Kurt Gödel, certamente influenciado por suas longas conversas com Einstein, encontrou uma solução para as equações de campo da relatividade geral que descreviam um espaço-tempo com algumas propriedades incomuns. Esse “universo de Gödel” permite curvas temporais fechadas, mostrando que a viagem no tempo é matematicamente imaginável. Ocupar-se de Deus, de uma barreira intransponível para o conhecimento matemático, e de viagens no tempo, é para poucos. Sua esposa Adele foi hospitalizada no final de 1977 e, em sua ausência, Gödel se recusou a comer. Mentalmente instável, ele sofria de delírios persecutórios e de medo paranoico de que alguém o envenenasse. Pesava 29 quilos quando morreu de “desnutrição e inanição causada por distúrbio de personalidade” no Hospital de Princeton, em 14 de janeiro de 1978. Gödel foi enterrado no Cemitério de Princeton.

Esse mesmo Gödel foi, então, quem produziu a mais sofisticada versão da prova ontológica da existência de Deus, em notas datadas de 1941. Contudo, só no início dos anos 1970, quando temia que pudesse morrer, foi que ele autorizou que sua prova se tornasse pública pela primeira vez.

https://prp.unicamp.br/inscricao-congresso/resumos/2020P16995A8968O2850.pdf

O Argumento Ontológico de Kurt Gödel 

Aluno: Mateus Coelho Belinello 

Orientador: Pq. Dr. Fábio Maia Bertato


"Enfim, o argumento ontológico de Gödel continua despertando o interesse de lógicos e filósofos, e continua suscitando novas questões. Desde o âmbito da lógica matemática pura, em que se investigam questões como a da possível redundância de algum dos axiomas, até o âmbito mais propriamente filosófico em que a verdade das premissas são vivamente disputadas, a literatura contemporânea nos apresenta todo um espectro de discussões sobre o argumento. Dentre as contribuições mais recentes estão (SZATSKOWSKI, 2012), (BENZMÜLLER, 2017) e (PRUSS, 2018)."




O argumento ontológico-matemático de Gödel para a existência de Deus

Muita gente considera que sua contribuição é até hoje a melhor versão do argumento ontológico para a existência de Deus,¹⁰ melhorando profundamente a tentativa de Anselmo de Cantuária. Sua versão, conhecida como a “Prova Ontológica de Gödel”, foi publicada em uma série de palestras na década de 1970, depois que ele deixou com seu aluno Dana Scott, agora um eminente lógico, as duas páginas de anotações nas quais esboçava sua nova versão da prova ontológica da existência de Deus de Anselmo.   

A prova de Gödel é um argumento complexo, enraizado na lógica modal e numa visão sofisticada da noção de demonstração, e pode ser desafiadora para se compreender sem um roteiro intelectual. Mas pretendo mostrar aqui que, se detalhado em passos simples, a prova de Gödel pode ser perfeitamente compreendida sem que se tenha uma formação profunda em lógica formal.

O teorema é relativamente curto e busca, assim como na proposta de Anselmo de Cantuária, provar a existência de Deus baseado unicamente no conceito de Deus como o ser mais perfeito imaginável. Mas o cerne do argumento de Gödel envolve o uso da lógica modal, que lida com conceitos formais de necessidade e possibilidade que levam inevitavelmente à existência de Deus como uma verdade necessária. Em termos intuitivos, um esboço simplificado do argumento ontológico de Gödel envolve os seguintes passos:

  1. A definição de Deus: Gödel começa definindo Deus como um ser que possui todas as propriedades positivas no mais alto grau de perfeição. Essas propriedades incluem qualidades como onipotência, onisciência e perfeição moral.
  2. Lógica Modal: Gödel introduz o aparato formal da lógica modal no argumento. Ele usa operadores modais como “Necessariamente” (□) e “Possivelmente” (◇), de forma que □ P significa “É necessário que P” e ◇ P significa “É possível que P”. Para quem tem alguma familiaridade com argumentos modais, é interessante notar que a prova de Gödel pode ser inteiramente formalizada na versão quantificada do cálculo modal KT.¹¹
  3. Existência de propriedades positivasGödel argumenta que, se uma propriedade positiva for consistente (não contraditória), então é possível que essa propriedade exista para alguma coisa ou objeto. Em outras palavras, se uma propriedade positiva for logicamente coerente, é possível que exista um ser com essa propriedade.
  4. O argumento ontológico modalizado: Gödel formula um conjunto de axiomas e teoremas dentro de um sistema lógico modal de primeira ordem (quantificado) para representar o conceito de Deus. Esses axiomas capturam a ideia de que a existência é uma propriedade positiva. Ele então deduz um teorema que afirma essencialmente o seguinte: se a existência de Deus é possível (ou seja, não há contradição lógica no conceito de Deus), então a existência de Deus é necessária.
  5. Prova por contradição: Mas isso ainda não conclui o argumento, porque parte da condição da existência de Deus ser apenas possível. Gödel usa, então, uma prova por contradição para demonstrar que a inexistência de Deus leva a uma contradição. Se a inexistência de Deus fosse possível, significaria que a existência de Deus não é necessária, o que contradiz o teorema anterior.
  6. Conclusão: Visto que a inexistência de Deus leva a uma contradição, Gödel conclui que a existência de Deus é necessária e, portanto, real.
 

A prova de Gödel tem sido objeto de extenso debate e detalhada análise entre lógicos, matemáticos, filósofos e teólogos. Alguns críticos alegam que o argumento de Gödel se baseia em suposições controversas sobre a natureza da existência. Outros argumentam que, ainda que o argumento seja logicamente válido, ele provaria a existência de um ser que não é necessariamente o Deus teísta como tradicionalmente compreendido. 

Os detalhes da matemática envolvidos na prova ontológica de Gödel podem parecer complicados, mas em essência seus teoremas e axiomas — suposições que não podem ser provadas, mas que são aceitas como verdades básicas — podem ser expressos em linguagem comum. Junto com os axiomas, os pontos mais complicados são as definições, no que pode ser considerado um dos maiores teoremas da matemática, que pretende demonstrar a existência de Deus, com um teorema ao final de uma cadeia de raciocínios. A aventura intelectual de Gödel pressupõe três definições sobre as propriedades de Deus e cinco axiomas sobre quem é Deus, detalhados a seguir, adaptando os esquemas de Koons e de Benzmüller e Paleo.¹² A explanação dos símbolos usados na prova virá em seguida.

Axioma 1. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x2227;</mo><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x2200;</mo><mi>x</mi><mfenced><mrow><mi>&#x3C6;</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mi>&#x3C8;</mi><mrow><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mrow></mrow></mfenced><mo>&#x27F9;</mo><mi>P</mi><mfenced><mi>&#x3C8;</mi></mfenced></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Axioma 2. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mo>&#xAC;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x27FA;</mo><mo>&#xAC;</mo><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Teorema 1. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#x2662;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>&#x3C6;</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Definição Dv. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo><mo>&#x27FA;</mo><mo>&#xA0;</mo><mo>&#x2200;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mfenced><mrow><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mrow><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mrow></mrow></mfenced></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Axioma 3. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Teorema 2. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2662;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Axioma 4. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#x25FB;</mo><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Definição Ess. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>&#x3C6;</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>e</mi><mi>s</mi><mi>s</mi><mi>&#xEA;</mi><mi>n</mi><mi>c</mi><mi>i</mi><mi>a</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>d</mi><mi>e</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>x</mi><mo>&#x27FA;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mfenced><mi>x</mi></mfenced><mo>&#x2227;</mo><mo>&#x2200;</mo><mi>&#x3C8;</mi><mfenced><mrow><mi>&#x3C8;</mi><mfenced><mi>x</mi></mfenced><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x2200;</mo><mi>y</mi><mfenced><mrow><mi>&#x3C6;</mi><mfenced><mi>y</mi></mfenced><mo>&#x27F9;</mo><mi>&#x3C8;</mi><mfenced><mi>y</mi></mfenced></mrow></mfenced></mrow></mfenced></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Definição NE{"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>N</mi><mi>E</mi><mfenced><mi>x</mi></mfenced><mo>&#x27FA;</mo><mo>&#x2200;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mfenced><mrow><mi>&#x3C6;</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>e</mi><mi>s</mi><mi>s</mi><mi>&#xEA;</mi><mi>n</mi><mi>c</mi><mi>i</mi><mi>a</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>d</mi><mi>e</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>x</mi><mo>&#xA0;</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>y</mi><mi>&#x3C6;</mi><mfenced><mi>y</mi></mfenced></mrow></mfenced></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Teorema 3. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2200;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#xA0;</mo><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>e</mi><mi>s</mi><mi>s</mi><mi>&#xEA;</mi><mi>n</mi><mi>c</mi><mi>i</mi><mi>a</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>d</mi><mi>e</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>x</mi></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Axioma 5. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>N</mi><mi>E</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Teorema 4. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Teorema 5:  {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false} Dado que esta conclusão é um teorema da lógica modal, portanto universalmente válido, Deus existe em todos os mundos possíveis (isto é, em todas as situações imagináveis) e é único, como será mostrado adiante.

Vou construir uma tradução direta em linguagem natural de cada definição e axioma, esclarecendo que letras gregas (como φ, “phi”, e ψ,“psi”) denotam propriedades. P denota uma propriedade especial que se aplica a outras propriedades e x denota objetos. A argumentação se refere a “mundos possíveis”, que seriam estados de coisas, configurações de acontecimentos ou objetos. Por exemplo, eu posso estar usando uma camisa amarela ou vermelha. Cada escolha dá um mundo possível. A loteria semanal, em outro exemplo, pode dar um número par ou ímpar, e isso define mundos possíveis distintos. 

Axioma 1. “Se φ é uma propriedade positiva e for necessário que, para todo x, se tem a propriedade φ, então x tem a propriedade ψ, então ψ é também uma propriedade positiva.”

Em outras palavras, se ψ é consequência universal (vale sempre) de uma propriedade positiva φ, então ψ “herda” a positividade.

Axioma 2. “Não-φ é uma propriedade positiva se, e somente se, φ não é uma propriedade positiva.”

Em outras palavras, φ e não não podem ser ambas propriedades positivas: ou uma é, ou a outra é, mas não ambas.

Gödel já pode então provar seu Teorema 1 (teorema intermediário, ou lema) com base no Axioma 1 e Axioma 2, que mostra que cada propriedade positiva é “possivelmente exemplificada”, ou seja, aplica-se pelo menos a algum objeto em algum mundo. Em outras palavras, não pode haver propriedade positiva que não se aplica a nada — se P é positiva, deve existir algum objeto a que P se aplica:

Teorema 1. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mi>P</mi><mo>(</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#x2662;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>&#x3C6;</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Neste ponto, Gödel introduz um conceito de Deus, por meio da definição Dv, segundo a qual um objeto é divino se, e somente se, tiver todas as propriedades positivas. O Axioma 3 estabelece que a propriedade de ser Divino é ela própria positiva.

Axioma 3. “A propriedade de ser Divino é uma propriedade positiva.”

Este axioma é bem aceitável: ser Divino não poderia deixar de ser uma propriedade positiva.

Gödel mostra então, no Teorema 2, a partir do Teorema 1 e do Axioma 3, e usando a Definição Dv, que é possível existir um objeto com a propriedade divina, semelhante a Deus, mas ainda não é o próprio Deus, porque só existiria em algum mundo possível, mas não obrigatoriamente no nosso mundo, ou em todos os mundos possíveis.

Teorema 2. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2662;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}, em palavras: é possível existir um ser divino.

O Axioma 4 afirma: “Se a propriedade φ é uma propriedade positiva, então é necessário que a φ seja uma propriedade positiva.”

Em outras palavras, uma propriedade φ ser positiva não acontece por acaso, não é contingente, mas, quando acontece, não há outra maneira. Pense em um número qualquer: se ele for par, ele não é às vezes par e às vezes ímpar, mas sempre par (ou seja, uma vez par, será sempre par, é necessariamente par). A propriedade de “ser positiva” é análoga.

Daqui por diante é que emerge a genialidade de Gödel, que ultrapassa o raciocínio de Anselmo de Cantuária, o qual, embora santo, talvez não fosse um gênio, nem estivesse preocupado com uma demonstração absolutamente matemática: uma plausível interpretação para a posição de Anselmo é a de que seu argumento pressuporia a admissão da existência de Deus pela fé, e que ele estaria mostrando que a forma correta de pensar sobre Deus é pensar n’Ele como existindo realmente, e não apenas conceitualmente. Gödel prossegue para provar que um objeto semelhante a Deus existe em todos os mundos possíveis.

Para este fim, a Definição Ess estabelece a noção de “essência”: se x é um objeto em algum mundo, então uma propriedade φ é considerada uma essência de x se φ(x) for verdadeira naquele mundo e se φ implica necessariamente todas as outras propriedades que x tem naquele mundo.

Em outras palavras, a propriedade φ é uma essência de x se se tem a propriedade φ, e se φ acarreta de forma necessária, não casual, todas as outras propriedades que x tem naquele mundo.

A última definição, a Definição NE, ou “existência necessária”. NE(x) expressa que x necessariamente existe, se, e somente se, todas suas propriedades essenciais são necessariamente exemplificadas, isto é, se são necessariamente não vazias. Essa é uma noção bastante forte de existência, mais forte que a existência como usualmente entendida. Um objeto x pode existir mesmo que alguma de suas propriedades essenciais não tenha sido exemplificada.

Gödel consegue então mostrar o Teorema 3 a partir do Axioma 1 e do Axioma 4 usando as definições Ess e NE. O Teorema 3 afirma que a propriedade de ser Divino, ou a Divindade, é uma essência de um objeto semelhante a Deus (note que “ser Divino” é ser semelhante a Deus). Em outras palavras, se um objeto é Divino, a divindade é sua essência:

Teorema 3. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2200;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>e</mi><mi>x</mi><mi>i</mi><mi>s</mi><mi>t</mi><mi>&#xEA;</mi><mi>n</mi><mi>c</mi><mi>i</mi><mi>a</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>d</mi><mi>e</mi><mo>&#xA0;</mo><mi>x</mi></mstyle></math> <p>","truncated":false}

Nesse ponto, Gödel assume, no Axioma 5, que a existência necessária, NE, é uma propriedade positiva, da qual se segue que a semelhança com Deus é necessariamente instanciada:  

Teorema 4. {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}

O Teorema 4 demonstra que necessariamente existe um ser com a propriedade do Divino a partir do Axioma 5, Teorema 2, Teorema 3 e Axioma 4, usando as definições de Dv e NE

Por fim, se assumirmos o axioma T da lógica modal {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x25FB;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo><mo>&#x27F9;</mo><mo>&#xA0;</mo><mi>&#x3C6;</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}(que afirma que, se algo é necessário, então é o caso), conclui-se o Teorema 5: 

Teorema 5: {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2203;</mo><mi>x</mi><mi>D</mi><mi>v</mi><mo>(</mo><mi>x</mi><mo>)</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}, que mostra que a semelhança com Deus existe em um objeto real — existe alguma coisa semelhante a Deus, isto é, Divina, e em todos os mundos possíveis, a partir do Teorema 3 e do Teorema 4.

Mas seria o mesmo Deus presente em cada mundo possível? Se ser idêntico a Deus conta como uma propriedade Divina, podemos provar que existe exatamente algo semelhante a Deus. De fato, se um ser ou objeto x é idêntico a Deus, isso deve ser uma propriedade positiva (já que, caso contrário, sendo diferente de Deus é que constituiria uma propriedade positiva, pelo Axioma 2, e o objeto x, sendo idêntico a Deus, teria que ser diferente, absurdo!). Mas isso significa que todo objeto semelhante a Deus deve ser idêntico ao objeto x, então, só pode existir um objeto ou ser semelhante a Deus. Assim, concluímos o Teorema 5, que estabelece que Deus (ou seja, o único ser divino) existe e é único.

No entanto, havia mais de uma falha na prova de Gödel, como explicado detalhadamente por Koons:¹³ não que a demonstração estivesse errada, mas Jordan H. Sobel levantou uma objeção ao argumento de Gödel, mostrando que ele engendra o “colapso de modalidades”, levando a uma conclusão indesejada de que toda verdade real é necessária — que não há absolutamente nada que seja contingente, o que é uma conclusão anti-intuitiva desastrosa. Sobel propôs uma emenda com o fim de preservar o argumento: restringir o domínio de propriedades que Gödel usa de modo a salvaguardar o teorema e evitar o colapso modal. A partir de 1990, vários autores, como C. A. Anderson, P. Hájek e F. Bjørdal, propuseram emendas aos axiomas e definições de Gödel.¹⁴ Discussões a respeito continuam — ver, por exemplo, Frank Thomas Sautter¹⁵ e Melvin Fitting,¹⁶ este último um livro inteiro tratando aspectos lógicos avançados e que dedica 50 páginas à formalização do argumento ontológico. Contudo, para nossos propósitos, é suficiente esclarecer que havia uma consequência indesejada na prova, mas que isso pode ser sanado.

Todavia, esse não foi o único ponto crítico. Após ser analisada com um alto grau de detalhamento formal com a ajuda de computadores por meio de provadores de teoremas de ordem superior, foi descoberta uma inconsistência na prova ontológica de Gödel. Apesar da popularidade do argumento desde o aparecimento do manuscrito de Gödel, no início da década de 1970, a inconsistência dos axiomas utilizados no argumento permaneceu despercebida até 2013, quando o Leo-II, após exaustiva busca, encontrou uma inconsistência na maquinaria de Gödel.¹⁷ Para deleite dos lógicos e dos fãs da Inteligência Artificial, a sentença encontrada pelo algoritmo é {"mathml":"</p> <math style=\"font-family:stix;font-size:18px;\" xmlns=\"http://www.w3.org/1998/Math/MathML\"><mstyle mathsize=\"18px\"><mo>&#x2662;</mo><mo>&#x25FB;</mo><mo>&#x22A5;</mo></mstyle></math> <p>","truncated":false}, significando “é possível que seja necessária uma contradição”. Como um modelo para essa sentença (que é uma consequência dos axiomas de Gödel) não pode ser construído, os axiomas de Gödel são inconsistentes.

Contudo, esse não foi um golpe fatal na prova de Gödel: várias soluções têm sido propostas e o argumento abstrato continua em pé. Como mencionado anteriormente, Gödel havia discutido sua prova com o experiente lógico Dana Scott, seu ex-estudante, que circulou uma versão ligeiramente diferente da de Gödel entre um público maior. A versão de Scott dos axiomas e definições, formalizada no assistente de provas Isabelle mostra-se consistente, mesmo que a de Gödel a rigor não o seja.¹⁸ Isabelle, como um assistente de provas, é um algoritmo complexo que transforma fórmulas matemáticas numa linguagem formal, e oferece ferramentas para provar essas fórmulas em um cálculo lógico. Sua principal aplicação é a formalização de provas matemáticas e, em particular, a verificação formal, que é a comprovação da exatidão de uma demonstração.

Uma variante simplificada do argumento ontológico de Gödel foi mostrada por Benzmüller usando a lógica modal KT.¹⁹ Essa variante, obtida em interação com um sistema de assistente de provas, não sofre o colapso modal e evita os predicados bastante complexos de essência (Ess) e existência necessária (NE) usados por Gödel. 

O significado disso é que, por mais que pareçam complicadas, refazer as demonstrações por trás do argumento de Gödel é uma tarefa computável, uma vez que algoritmos podem verificar as provas e propor contraexemplos. Mas jamais conseguiriam propor as definições e reunir os pressupostos (axiomas) que Gödel alinhavou — essa é uma tarefa humana, talvez permanentemente humana.

Existe sempre a dúvida de que o próprio Teorema da Incompletude de Gödel referido anteriormente colocaria um ponto fraco em sua prova ontológica da existência de Deus, mas esse não é o caso. Embora os resultados de incompletude e impossibilidade da demonstração da consistência em sistemas matemáticos com capacidade aritmética tenham produzido um enorme impacto na filosofia da matemática e da lógica, os resultados de incompletude dizem respeito à aritmética elementar e são, portanto, independentes da lógica modal implícita na prova ontológica. Não é preciso aritmética para fazer lógica modal e nem quantificação sobre mundos possíveis para se fazer aritmética.

Deus em outras lógicas: a perspectiva paraconsistente

O sofisticado argumento de Gödel pode realmente ser tomado como a prova definitiva da existência de Deus? A prova poderia ter algum problema, para além dos problemas lógicos apontados anteriormente, que já estão devidamente sanados?

A prova de Gödel é impecável, até mesmo quando verificada por computador, mas ela recai em um pequeno detalhe: os axiomas que ele usa são passíveis de críticas e não são universalmente aceitos. O problema é que Gödel não apresenta razões pelas quais os axiomas deveriam ser verdadeiros. Se não forem verdadeiros, então o restante da prova também não será válido. Além dos axiomas, as definições que Gödel propõe pretendem esclarecer racionalmente quem ou o que é Deus, para então concluir sua existência. Mas pode-se argumentar que isso envolve uma alta dose de presunção, posto que parece limitar ou restringir o poder de Deus: por qual razão devemos assumir que Deus teria de se limitar a existir? Deus, pela sua própria definição, pode ter a divina onipotência de nem precisar existir. Ou de existir e não existir.

René Descartes, já no século 17, não descartava esta possiblidade, apenas modestamente a julgava impossível para sua própria concepção:

Não creio que possamos dizer que algo não pode ser realizado por Deus. Pois, uma vez que tudo relacionado à verdade e bondade depende de Sua onipotência, eu não ousaria dizer que Deus não pode criar uma montanha sem um vale, ou que um e dois não podem ser três. Apenas afirmo que Ele me deu uma mente tal que não consigo conceber uma montanha sem um vale, ou um agregado de um e dois que não seja três, e que tais coisas envolvem uma contradição na minha concepção.²⁰

Tem havido tentativas de formular argumentos formais para a existência de Deus usando lógicas não clássicas, mas isso pode não ter sentido. Lógicas não clássicas são sistemas alternativos de lógica formal que diferem da lógica clássica em suas regras de inferência, valores de verdade ou suposições subjacentes. Essas lógicas podem permitir diferentes tipos de raciocínio e conclusões, e alguns filósofos exploraram se podem fornecer novas perspectivas sobre a existência de Deus. Embora as lógicas não clássicas levem a formas alternativas de raciocínio e abordem questões filosóficas, elas não produzem necessariamente provas alternativas definitivas da existência de Deus.

Existir por intermédio de outros argumentos não muda a questão fundamental: existência é uma mera propriedade dos seres finitos, das coisas e dos objetos mundanos. Por que Deus deveria ter sua existência codificada pela lógica clássica ou por qualquer outra?  Deus poderia estar em estados superpostos, como até nós, mortais, sabemos da mecânica quântica. E se até nós, mortais, estamos conscientes da possibilidade da lógica paraconsistente²¹ que permitiu uma divina contradição como Deus simultaneamente existir e não existir, sem destruir a razão, por que Deus não estaria também a par? O gênio de Descartes, se vivesse em nossos tempos, certamente compreenderia isso.

Existir por intermédio de outros argumentos não muda a questão fundamental: existência é uma mera propriedade dos seres finitos, das coisas e dos objetos mundanos. Por que Deus deveria ter sua existência codificada pela lógica clássica ou por qualquer outra?

As lógicas paraconsistentes permitem contradições sem levar ao trivialismo (a ideia de que tudo é verdade). Alguns aplicaram lógicas paraconsistentes no contexto da teologia para abordar o problema do mal ou para explorar a compatibilidade dos atributos de Deus com a existência do mal e do sofrimento. A lógica paraconsistente é uma teoria de raciocínio, no mesmo nível da lógica clássica, lógica relevante e lógica modal. Como a lógica clássica, esses sistemas têm suas próprias suposições, limitações e complexidades. Os filósofos que trabalham com lógicas não clássicas muitas vezes procuram explorar novas perspectivas e enfrentar desafios filosóficos de longa data de forma criativa, mas os debates em torno da existência de Deus permanecem contínuos e multifacetados.

Por último, mesmo que se aceite a demonstração de Gödel, o argumento pode ser usado para estabelecer a existência única de qualquer deus, que talvez não seja o seu: sem se limitar ao Deus da tradição bíblica ou Alá, o argumento também pode ser usado para Vishnu e Shiva, Anúbis, Odin, Oxalá, Tupã ou qualquer outro ser divinal que a humanidade já tenha imaginado.

 

 

Agradecimentos

Agradeço aos colegas Fábio Bertato e Pedro Carrasqueira por críticas e sugestões úteis a este texto. Este trabalho é apoiado pelo Projeto Temático FAPESP 2020/16353-3 e pela bolsa PQ-1 303780/2022-3 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Brasil).

Referências

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Oppy, Graham. Ontological Arguments. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Fall 2023 Edition, Edward N. Zalta & Uri Nodelman (eds.), 2023. Clique aqui para acessar.

Sobel, Jordan Howard. Logic and Theism: Arguments for and Against Beliefs in God. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. 

Swinburne, Richard. Faith and Reason. 2a. ed. Inglaterra: Oxford University Press, 2005.

Swinburne, Richard. The Existence of God. 2a. ed. Inglaterra: Oxford University Press, 2004.

Walls, Jerry; Dougherty, Trent (Eds.). Two Dozen (or so) Arguments for God: The Plantinga Project. Inglaterra:‎ Oxford University Press, 2018.


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Refutação de alguns argumentos a favor da existência de deus

Dan Baker

Os teístas afirmam que existe um deus; os ateus não. Pessoas religiosas desafiam frequentemente ateus a provarem que não há deus; mas isso revela um equívoco. Os ateus afirmam que a existência de deus não está provada, não afirmam que está provada a inexistência de deus. Em qualquer argumento, o ônus da prova está do lado daquele que faz a afirmação.

Se uma pessoa afirma ter inventado um dispositivo antigravidade, não cabe a outros provar que tal coisa não existe. O crente tem de provar a sua afirmação. Todas as outras pessoas estão justificadas em recusar acreditar até que a evidência seja apresentada e substanciada.

Alguns ateus acham que o argumento é confuso até que o termo “deus” seja tornado compreensível. Palavras como “espírito” e “sobrenatural” não têm qualquer coisa que lhes corresponda na realidade, e ideias como “onisciente” e “onipotente” são contraditórias. Por que discutir um conceito sem sentido?

No entanto, há muitas linhas de raciocínio teísta e têm sido escritos livros sobre cada uma delas. As seções seguintes resumem brevemente os argumentos e as refutações. O ateísmo é a posição base que permanece quando todas as alegações teístas são rejeitadas.

Design

“De onde veio tudo? Como é que explica a ordem complexa do universo? Não posso acreditar que a beleza da natureza simplesmente apareceu por acidente. O design requer um projetista.”

Este argumento limita-se a pressupor que é verdade aquilo que quer provar. Qualquer tentativa de “explicar” algo requer um contexto mais amplo dentro do qual a explicação pode ser compreendida. Pedir uma explicação do “universo natural” é simplesmente pedir um “universo mais amplo”.

O universo é “tudo que existe”. Não é uma coisa. Um deus certamente seria uma parte de “tudo que existe”, e se o universo requer uma explicação, então deus requer um [outro] deus, ad infinitum.

A mente de um deus seria pelo menos tão complexa e ordenada quanto o resto da natureza e estaria sujeita à mesma pergunta: Quem fez deus? Se um deus pode ser encarado como eterno, então o universo também pode ser encarado como eterno.

Há design no universo, mas falar de design do universo é apenas semântica teísta. O design que observamos na natureza não é necessariamente inteligente. A vida é o resultado do “design” não-consciente da seleção natural. A ordem no cosmos vem do “design” da regularidade natural. Não há qualquer necessidade de uma explicação mais ampla.

O argumento do design baseia-se na ignorância, não em fatos. O fracasso em solucionar um enigma natural não significa que não há resposta. Durante milênios os humanos têm criado respostas míticas para “mistérios” como o trovão e a fertilidade. Mas quanto mais aprendemos, menos precisamos de deuses. A crença em deus é apenas responder a um mistério com outro mistério e, consequentemente, não responde a nada.

“O universo é governado por leis naturais. Leis requerem um legislador. Tem de existir um Governador Divino.”

Uma lei natural é uma descrição, não é uma prescrição. O universo não é “governado” por coisa alguma. As leis naturais são meramente concepções humanas sobre o modo como as coisas normalmente reagem, não são mandamentos sobre o comportamento, como no caso de leis sociais. Se o argumento do design fosse válido, a mente de um deus seria igualmente “governada” por algum princípio de ordem, o que requereria um legislador superior.

“É impossível que a complexidade da vida tenha ocorrido por acidente, e a segunda lei da termodinâmica, que diz que todos os sistemas tendem para a desordem, torna a evolução impossível. Era necessário um Criador.”

Estas objeções pseudocientíficas baseiam-se em erros. Nenhum biólogo afirma que organismos apareceram subitamente num passo de mutação “acidental”. A evolução é a acumulação gradual de pequenas mudanças ao longo de milhões de gerações de adaptação ao ambiente. Os humanos, por exemplo, não tinham necessariamente de evoluir — qualquer uma de bilhões de possibilidades viáveis podia ter-se adaptado, tornando muito provável que algo sobreviveria à implacável seleção natural.

Usar probabilidades, depois do fato consumado, é como um vencedor da lotaria que dissesse: “É altamente improvável que eu pudesse ganhar esta lotaria, portanto não devo ter ganho”.

Os criacionistas deturpam muitas vezes a segunda lei da termodinâmica, que diz que a desordem aumenta num sistema fechado. A Terra, atualmente, é parte de um sistema aberto, recebe energia do sol. Conduzida pela entrada de energia solar (e outras formas de energia, como a química), a complexidade comumente aumenta, como no caso do crescimento de um embrião ou um cristal. Claro que por fim o sol arrefecerá e a vida na terra desaparecerá.

Experiência Pessoal

“Milhões de pessoas conhecem pessoalmente Deus através de uma experiência espiritual interior.”

A maioria dos teístas afirma que o seu deus particular pode ser conhecido através de meditação e oração, mas essas experiências não apontam para algo exterior à mente. O misticismo pode ser explicado psicologicamente; não é necessário complicar a nossa compreensão do universo com suposições fantasiosas. Sabemos que muitos humanos habitualmente inventam mitos, ouvem vozes, têm alucinações e falam com amigos imaginários. Não sabemos que existe um deus.

Há milhões de crentes em deus; mas essa é uma declaração sobre a Humanidade, não sobre deus. A verdade não é algo que se alcança através do voto. As religiões surgiram para lidar com a morte, fraqueza, sonhos e medo do desconhecido. São mecanismos poderosos para dar sentido à vida e identidade pessoal/cultural. Mas as religiões diferem radicalmente umas das outras, e apelos à experiência interior apenas pioram o conflito.

“Os ateus não têm discernimento espiritual e dificilmente poderiam criticar a experiência teísta de Deus. Isso seria como uma pessoa cega negando a existência das cores.”

Muitos teístas afirmam que deus é conhecido através de uma sensibilidade “espiritual”. Mas será que a fé é um “sexto sentido” que detecta outro mundo? Céticos negam que tal coisa exista.

A analogia com o cego não é apropriada porque as pessoas cegas não negam o sentido da visão, nem negam que as cores existam. Os cegos e os que veem vivem no mesmo mundo, e ambos podem compreender os princípios naturais envolvidos. O caminho da luz pode ser traçado através de um olho normal até ao cérebro. As frequências podem ser explicadas e o espectro pode ser experimentado independentemente da visão. A existência da cor não precisa ser aceita através da fé.

O teísta, porém, não apresenta qualquer meio independente de testar o discernimento “espiritual”, portanto temos de duvidar disso. O cético não nega a realidade de experiências religiosas subjetivas, mas sabe que podem ser explicadas psicologicamente sem referência a um domínio supostamente transcendente.

A afirmação implícita de que os teístas são os únicos seres humanos “completos” é infundada e arrogante.

Moralidade

“Todos nós temos um sentido do certo e do errado, uma consciência que nos coloca sob uma lei superior. Este apelo moral universal aponta para fora da Humanidade. É consistente que Deus, um ser não-físico, se relacionasse conosco através de tal meio sublime.”

Aqui está outro argumento baseado na ignorância. Os sistemas éticos baseiam-se no valor que os humanos atribuíram à vida: “bem” é aquilo que melhora a vida, e “mal” é aquilo que a ameaça. Não precisamos de uma divindade para nos dizer que é errado matar, mentir ou roubar. Os humanos sempre tiveram o potencial para usar as suas mentes para determinar o que é bondoso e razoável.

Não existe um “apelo moral universal” e nem todos os sistemas éticos concordam entre si. Poligamia, sacrifícios humanos, canibalismo (eucaristia), espancamento da esposa, automutilação, guerra, circuncisão, castração e incesto são ações perfeitamente “morais” em algumas culturas. Será que deus está confuso?

É contraditório chamar a deus “ser não-físico”. Um ser tem de existir como alguma forma de massa no espaço e no tempo. Os valores residem no interior dos cérebros físicos, portanto se a moralidade aponta para “deus”, então nós somos deus: o conceito de deus é simplesmente uma projeção de ideais humanos.

“Se não existe um padrão moral absoluto, então não existe certo e errado absolutos. Sem Deus, não há base ética e a ordem social desintegrar-se-ia. As nossas leis baseiam-se na Bíblia.”

Este é um argumento a favor da crença num deus, não é um argumento a favor da existência de um deus. A exigência de uma moralidade “absoluta” só vem de religiosos inseguros. (Voltaire ironizou: “Se deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.) Pessoas maduras sentem-se confortáveis com o caráter relativo do humanismo, visto que este fornece um quadro de referência consistente, racional e flexível para o comportamento humano ético — sem uma divindade.

As leis americanas baseiam-se numa constituição secular, não se baseiam na Bíblia. Quaisquer textos bíblicos que apoiem uma boa lei só fazem isso porque passaram no teste dos valores humanos, que são muito anteriores aos ineficazes Dez Mandamentos.

Não há evidência de que os teístas são mais morais que os ateus. De fato, o contrário parece ser verdadeiro, conforme evidenciado por séculos de violência religiosa. Em sua maioria, os ateus são pessoas felizes, produtivas e morais.

Mesmo que este argumento fosse verdadeiro, seria de pouco valor prático. Cristãos devotos e crentes na Bíblia não conseguem concordar entre si quanto ao que a Bíblia diz sobre muitas questões morais cruciais. Crentes comumente adotam posições opostas em assuntos tais como pena de morte, aborto, pacifismo, controle de natalidade, suicídio medicalmente assistido, direitos dos animais, ambiente, separação entre igreja e estado, direitos dos homossexuais e direitos das mulheres. Disso pode concluir-se que ou há uma multiplicidade de deuses distribuindo conselhos morais contraditórios, ou um único deus que está irremediavelmente confuso.

Primeira Causa

“Tudo teve uma causa, e toda a causa é o efeito de uma causa anterior. Algo deve ter começado tudo. Deus é a primeira causa, o estático que move, o criador e sustentáculo do universo.”

A premissa maior deste argumento, “tudo teve uma causa”, é contrariada pela conclusão de que “Deus não teve uma causa”. As duas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras. Se tudo teve uma causa, então não pode ter havido uma primeira causa. Se é possível pensar num deus sem causa, então é possível pensar o mesmo do universo.

Alguns teístas, vendo que todos os “efeitos” precisam de uma causa, afirmam que deus é uma causa, mas não é um efeito. Mas ninguém jamais observou uma causa não-causada, e inventar simplesmente uma causa não-causada apenas pressupõe o que o argumento quer provar.

(Para um exame detalhado do moderno “Argumento Cosmológico Kalam”, veja o meu artigo Cosmological Kalamity.)

Aposta de Pascal

“Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.”

O argumento, formulado originalmente pelo filósofo francês Blaise Pascal, é pura intimidação. Não é um argumento a favor da existência de um deus: é um argumento a favor da crença, baseado em medo irracional. Com este tipo de raciocínio, deveríamos simplesmente escolher a religião que tivesse o pior inferno.

Não é verdade que o crente nada perde. Diminuímos esta vida ao preferir o mito de uma vida após a morte, e sacrificamos a honestidade à perpetuação de uma mentira. A religião exige tempo, energia e dinheiro, desviando recursos humanos valiosos do melhoramento deste mundo. O conformismo religioso, um instrumento de tiranos, é uma ameaça à liberdade.

Também não é verdade que o descrente nada ganha. Rejeitar a religião pode ser uma experiência libertadora positiva, ganhando perspectiva e liberdade para questionar. Os livres-pensadores sempre estiveram na linha da frente do progresso social e moral.

Que tipo de pessoa torturaria eternamente alguém que duvida honestamente? Se o seu deus é tão injusto, então os teístas correm tanto perigo como os ateus. Talvez deus tenha um gozo perverso em mudar de ideias e condenar toda a gente, crentes e descrentes por igual. Ou, invertendo a aposta, talvez deus só salve aqueles que têm coragem suficiente para não crer!

Pascal era um católico e supôs que a existência de deus significava o Deus cristão. No entanto, o Alá islâmico poderia ser o verdadeiro deus, o que torna a aposta de Pascal uma aposta mais arriscada do que se pretendia.

De qualquer modo, crer numa divindade com base no medo não produz admiração. Não se segue daí que tal ser mereça ser adorado.

(Veja o Capítulo 12: “What If You’re Wrong?” em Losing Faith In Faith: From Preacher To Atheist para uma resposta mais completa à aposta de Pascal.)

Argumento Ontológico

“Deus é um ser tal que nenhum ser maior pode ser concebido. Se deus na realidade não existe, então é possível concebê-lo como maior do que é. Portanto, Deus existe.”

Há dezenas de variantes do argumento ontológico, mas S. Anselmo foi o primeiro a articulá-lo deste modo. A falha neste raciocínio é tratar a existência como um atributo. A existência é um dado adquirido. Nada pode ser grande ou perfeito a menos que exista primeiro, portanto o argumento está invertido.

Uma boa maneira de refutar este raciocínio é substituir “ser” e “Deus” com outras palavras. (“A Ilha do Paraíso é uma ilha…”) Dessa forma poderíamos provar a existência de um “vácuo” perfeito, o que significaria que nada existe!

O argumento esmaga-se a si próprio, porque pode conceber-se deus como tendo massa infinita, o que é refutado empiricamente. E está-se a comparar maçãs com laranjas ao se supor que a existência na concepção pode de alguma forma estar relacionada com a existência na realidade. Mesmo que a comparação fosse válida, por que é a existência na realidade “maior” (seja lá o que isso signifique) do que a existência na concepção? Talvez seja ao contrário.

Não admira que Bertrand Russell tenha dito que todos os argumentos ontológicos são um caso de má gramática!

Revelação

“A Bíblia é historicamente confiável. Não há razão para duvidar dos testemunhos dignos de confiança que resistiriam em tribunal. Deus existe porque Ele se revelou através da Bíblia.”

A Bíblia reflete a cultura do seu tempo. Embora boa parte do seu enredo seja histórico, também há uma boa parte que não é. Por exemplo, não há apoio contemporâneo para a história de Jesus fora dos evangelhos, que foram escritos por desconhecidos entre 30 a 80 anos depois da alegada crucificação (dependendo do perito que consultarmos). Muitos relatos, como as histórias da criação, entram em conflito com a ciência. As histórias da Bíblia são apenas isto: histórias.

A Bíblia é contraditória. Um bom exemplo é a discrepância entre as genealogias de Jesus dadas por Mateus e Lucas. A história da ressurreição de Jesus, contada por pelo menos 5 escritores diferentes, é irremediavelmente irreconciliável. Peritos descobriram centenas de erros bíblicos que não têm sido satisfatoriamente explicados por apologistas.

A Bíblia, tal como outros escritos religiosos, pode ser explicada em termos puramente naturais. Não há razão para exigir que seja ou completamente verdadeira ou completamente falsa. O cristianismo está repleto de paralelos de mitos pagãos, e a sua emergência como seita messiânica do século II resulta das suas origens sectárias judaicas. Os autores dos evangelhos admitem que estão a escrever propaganda religiosa (João 20:31), o que é uma pista de que devem ser tomados com algumas reservas.

Thomas Paine, em The Age of Reason (A Idade da Razão), indicou que a Bíblia não pode ser revelação. Revelação (se existe) é uma mensagem divina comunicada diretamente a alguma pessoa. Assim que essa pessoa o relata, isso se torna um rumor em segunda mão. Ninguém está obrigado a acreditar nisso, especialmente se for fantástico. É muito mais provável que relatos sobre o miraculoso sejam devidos a erro honesto, engano deliberado ou interpretação teológica meticulosa de eventos perfeitamente naturais.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. Um critério da história crítica é a suposição de regularidade natural ao longo do tempo. Isso exclui milagres, que por definição “passam por cima” das leis naturais. Se admitirmos a existência de milagres, então todos os documentos, incluindo a Bíblia, tornam-se inúteis enquanto história.

Ciência

“Há muitos cientistas que acreditam em Deus. Se muitas das pessoas mais inteligentes do mundo são teístas, então a crença em Deus deve ser sensata.”

Isto não passa de um apelo à autoridade, que os ateus também poderiam fazer, e até melhor. Os acadêmicos, como grupo, são muito menos religiosos que a população em geral. Embora seja fácil encontrar cientistas que são crentes, nenhum deles consegue demonstrar cientificamente a sua fé. A crença é normalmente um assunto cultural ou pessoal separado da ocupação e ninguém, nem mesmo um cientista, é imune às seduções irracionais da religião.

A nova ciência da física quântica está a mostrar que a realidade é incerta e menos concreta. Agora há lugar para milagres. Uma perspectiva teísta do mundo não é inconsistente com a ciência.”

Isso é um disparate. Um milagre é supostamente uma suspensão das leis naturais que aponta para um domínio transcendente. Se a nova ciência torna os milagres naturalmente possíveis (um conceito contraditório), então não há domínio sobrenatural, nem deus.

Na física quântica, o termo “incerteza” não se aplica à realidade, mas antes ao nosso conhecimento da realidade.

O teísmo implica um domínio sobrenatural. A ciência limita-se ao mundo natural. Portanto, o teísmo nunca pode ser consistente com a ciência, por definição.

“A crença em Deus não é intelectual. A razão é limitada. A verdade de Deus só pode ser conhecida através de um salto de fé, que transcende mas não contradiz a razão.”

Isso não é argumento. Admitir que algo é não-intelectual remove esse assunto do domínio da discussão. Sim, a razão é limitada: é limitada aos fatos. Se você ignorar os fatos, só fica com hipóteses e o desejo de que fossem reais.

Fé é a aceitação da verdade de uma declaração apesar de evidência insuficiente ou contraditória, o que nunca foi consistente com a razão. A fé, pela sua própria invocação, é uma admissão transparente de que as alegações religiosas não se conseguem manter de pé por si mesmas.

Mesmo que o teísmo fosse uma hipótese consistente (não é), ainda precisaria de ser provado. É por isso que a maioria dos teístas minimiza a prova e a razão e enfatiza a fé, por vezes afirmando de forma ridícula que a ciência requer fé, ou que o ateísmo é uma religião.

Poderes Psíquicos

“Há forte evidência de poderes psíquicos, reencarnação e coisas semelhantes. Você tem de admitir que há ali alguma coisa!”

A maioria dos cientistas discorda que haja forte evidência para alegações “paracientíficas”. Quando cuidadosamente examinadas com controles rígidos, são geralmente expostas como deturpações ou completa fraude.

Mesmo que essas alegações fossem legítimas, fenômenos misteriosos podem ter explicações perfeitamente naturais. Nesses casos, os céticos preferem suspender o julgamento em vez de se lançarem em conclusões supersticiosas.

Conclusão

Deve notar-se que mesmo que estes argumentos teístas fossem válidos, não estabeleceriam o criador como sendo pessoal, singular, perfeito e atualmente vivo (exceto o argumento da “revelação”, que tem a liberdade de criar qualquer tipo de deus que se deseje). E nenhum desses argumentos lida com a presença de caos, maldade e dor no mundo, o que torna uma divindade onipotente responsável pelo mal.

Muitos teístas, quando se apercebem que os seus argumentos filosóficos falharam, recorrem a ataques pessoais estereotipados. Todos os ateístas são rotulados de infelizes, imorais, encolerizados, arrogantes, demoníacos, vilões insensíveis que não têm razão para viver. Isso é falso e injusto. Mas mesmo que fosse verdade, isso não tornaria o teísmo correto.

Visto que o exame cuidadoso mostra que todos os argumentos teístas são inválidos, o ateísmo fica como a única posição racional.

Definições

Religião: Sistema de pensamento ou prática que alega transcender o nosso mundo natural e que exige conformidade a um credo, Bíblia ou salvador.

Deus: Um ser que criou e/ou governa o universo. Normalmente é definido com aspectos pessoais como inteligência, vontade, sabedoria, amor e ódio, e com aspectos sobrehumanos como onipotência, onisciência, imortalidade, onibenevolência e onipresença. É mais frequente ser retratado como interagindo com a Humanidade, mas por vezes diz-se que é uma “força” impessoal ou a própria natureza.

Teísmo: Crença em deus ou deuses.

Ateísmo: Ausência de crença em deus ou deuses.

Agnosticismo: Recusa em aceitar a verdade de uma proposição para a qual a evidência ou a justificação lógica são insuficientes. A maioria dos agnósticos suspende julgamento quanto à crença em deus.

Livre-pensamento: A prática de formar opiniões sobre religião com base na razão, sem referência à autoridade, tradição ou crença estabelecida.

Racionalismo: A ideia de que todas as crenças deviam ser sujeitas aos métodos provados da investigação racional. Tratamentos especiais como fé e autoridade, que não são permitidos em outras disciplinas, não são aceitos para analisar a religião.

Verdade: O grau em que uma afirmação corresponde à realidade ou à lógica.

Realidade: Aquilo que é diretamente perceptível através dos nossos sentidos naturais, ou averiguado indiretamente através do uso correto da razão.

Razão: Uma ferramenta de pensamento crítico que limita a verdade de uma proposição por testes de verificação (que evidência ou observações reproduzíveis a confirmam?), falseabilidade (o que, teoricamente, a refutaria, e essas tentativas falharam todas?), parcimônia (é a explicação mais simples, requerendo o menor número de suposições?) e lógica (está livre de contradições e non sequiturs?).

Humanismo: Humanismo secular é uma perspectiva racionalista que faz da humanidade a medida dos valores.

Todas estas palavras sofreram múltiplas definições. É evidente que a definição de religião pode variar com cada religioso. Muitos ateus consideram-se a si mesmos livres-pensadores, racionalistas e agnósticos, visto que estes não são rótulos mutuamente exclusivos. O agnosticismo é aqui definido seguindo a intenção original de Huxley, embora o uso popular corrente trate o agnosticismo como um meio termo entre o teísmo e o ateísmo. Toda a pessoa que, por qualquer razão, não possa dizer “eu tenho uma crença num deus”, é um ateu.

Leitura Adicional

  • The Age of Reason, Thomas Paine.
  • An Anthology of Atheism and Rationalism, editado por Gordon Stein, Prometheus Books, New York, 1980.
  • A Second Anthology of Atheism and Rationalism, editado por Gordon Stein, Ph.D., Prometheus Books, New York, 1987.
  • Atheism: A Philosophical Justification, Michael Martin, Temple University Press, Philadelphia, 1990.
  • Atheism: The Case Against God, George Smith, Prometheus Books, New York, 1979.
  • Bertrand Russell on God and Religion, editado por Al Seckel, Prometheus Books, New York, 1986.
  • Critiques of God: Making the Case Against Belief in God, editado por Peter Angeles, Prometheus Books, New York, 1976.
  • Ten Common Myths About Atheists, Annie Laurie Gaylor, Freedom From Religion Foundation, Madison, Wisconsin (folheto), 1987.

***

Este capítulo originalmente foi impresso como um folheto, e vendido e distribuído aos membros da Freedom From Religion Foundation. O seu propósito é fornecer uma resposta pronta e resumida para argumentos teístas comuns. A maior parte dos argumentos foi desenvolvida mais detalhadamente em outras partes do livro Losing Faith In Faith: From Preacher To Atheist, de Dan Barker.

Copyright © 1992 by Dan Barker. Todos os direitos reservados.






7 - Os Matemáticos da Evolução - Josiney Alves de Souza

"O interesse de matemáticos em biologia se consolidou principalmente após a revolução na biologia molecular, em que a Biomatemática se tornou uma disciplina em franca expansão. Em geral, os matemáticos descobriram que o mecanismo darwiniano seria viável matematicamente somente se poderosas hipóteses fossem agregadas, as quais a teoria de Darwin não fornece. Os matemáticos também confirmaram as inconsistências da teoria darwiniana com respeito à extrapolação da micro para a macroevolução, previamente apontadas por cientistas de outras áreas como a geologia e a genética."

"O interesse de Ulam pela biologia foi extremamente importante para o desenvolvimento científico, tanto pelos seus trabalhos sobre autômatos celulares, biologia populacional, reconhecimento de padrões e espaços biométricos, quanto pela sua análise matemática dos processos evolucionários. Seu potencial matemático aliado ao uso de computadores viria a detectar inconsistências numéricas significativas em tais processos, tornando improváveis as suposições da evolução na maneira ortodoxa em que eram colocadas. Ulam não declararia que os processos evolucionários eram completamente insustentáveis, mas apontou para a necessidade de uma reformulação nas hipóteses."

"Ulam foi incisivo em seu discurso: Parece exigir muitos milhares, talvez milhões, de sucessivas mutações para produzir até mesmo a mais fácil complexidade que podemos ver na vida agora. Parece, pelo menos ingenuamente, que não importa o quão grande seja a probabilidade de uma única mutação, mesmo que seja tão boa quanto um meio, você teria essa probabilidade elevada a uma potência de milhões, o que é tão próximo de zero que as chances de tal cadeia parecem ser praticamente inexistentes. 1".

"Schützenberger assumiu uma postura agressiva contra os devotos do neodarwinismo...Assinalou que a teoria de Darwin e a interpretação de sistemas biológicos como objetos formais estavam em desacordo, uma vez que os processos aleatórios são degradantes em contextos formais. Nesses aspectos, argumentou que o mecanismo darwiniano logicamente necessitava de algum princípio ativo de coordenação entre o espaço tipográfico das macromoléculas informativas (DNA e RNA) e o espaço orgânico dos próprios seres viventes, o que a teoria de Darwin não fornece...
Sua experiência é bastante conclusiva para a maioria dos observadores: sem alguma correspondência interna, nada de interessante pode ocorrer. Assim, para concluir, acreditamos que há uma lacuna considerável na teoria neodarwiniana da evolução, e acreditamos que esta lacuna seja de tal natureza que não pode ser superada dentro da concepção atual da biologia.2
Partindo do princípio de que um gene é como uma unidade de informação, assinala que a quantidade de informações exigida pelos darwinistas para a formação do olho é absurdamente ingênua, concordando com a anterior argumentação de Ulam de que não haveria tempo disponível para a evolução ocorrer daquela forma, havendo a necessidade de um maior corpo de conhecimentos e de algum tipo de organização. Com efeito, seriam necessários cerca de mil genes para a confecção do olho, mas cada gene isoladamente nada significa. O que é realmente significativo é a combinação de suas interações em cascata, as quais expressam uma organização cuja complexidade a tecnologia humana ainda não é capaz de analisar. De qualquer forma, Schützenberger era convicto da impossibilidade do olho ter se formado do acaso conforme a esquematização evolucionista.
Ainda na entrevista de 1996, ele argumentava que não há como prever se esta ou aquela espécie ou se essa ou aquela variedade será favorecida ou não como resultado de mudanças no ambiente. Em um deserto, por exemplo, as espécies que morrem rapidamente são aquelas que necessitam de mais água; mas não há como explicar o surgimento entre os sobreviventes daquelas estruturas cujas características lhes permitem resistir à aridez. Questões não esclarecidas como essa revelariam que a tese da seleção natural é um instrumento fraco de prova da evolução, sem falar que os fenômenos aplicados à seleção natural são óbvios e nada estabelecem teoricamente. Questionado sobre a relevância da união das hipóteses de seleção natural e mutação genética, Schützenberger argumentou que a evolução não poderia ser um acúmulo de erros tipográficos (mutação de genes) associados a condições específicas do ambiente. Acrescentou que os geneticistas de população podem estudar a velocidade com que uma mutação favorável se propaga sob essas circunstâncias porque nenhum dos parâmetros que eles usam pode ser determinado empiricamente.
Comentando sobre o modelo de seleção cumulativa de Richard Dawkins,5 Schützenberger sublinhou que ele não reflete as realidades biológicas palpáveis porque, de uma perspectiva matemática, exclui totalmente os tríplices problemas da complexidade, funcionalidade e suas interações.
Uma macromutação não degenerativa seria um primeiro exemplo de milagre. Outros milagres ocorreriam na instrução para as grandes progressões e tendências evolutivas, como a elaboração do sistema nervoso, a internalização do processo reprodutivo, a aparência do osso, o surgimento das orelhas, cuja acumulação teria o efeito de aumentar a complexidade e a eficiência de vários organismos."

"Frederick Hoyle
A noção de que não só os biopolímeros, como o funcionamento do programa de uma célula viva poderia ter chegado por acaso em uma sopa primordial aqui na terra é evidentemente um absurdo de ordem elevada. Alguns de meus amigos astrônomos são matemáticos consideráveis, e uma vez que se tornam interessados o suficiente para calcular por si próprios, em vez de depender de argumento de boatos, eles rapidamente podem ver este ponto.
 Se se prossegue diretamente nesse assunto, sem ser desviado pelo medo de incorrer na ira da opinião científica, chega-se à conclusão de que os biomateriais com sua medida ou ordem maravilhosas devem ser resultado de design inteligente. Problemas de ordem, como as sequências de aminoácidos nas cadeias são precisamente o que se torna fácil depois de que uma inteligência dirigida entra em cena.
A probabilidade da formação espontânea da vida a partir de matéria inanimada é de 1 para outro número seguido por 40.000 zeros [...]. É vasto o suficiente para sepultar Darwin e toda a teoria da evolução.
Hoyle calculou que a probabilidade de se obter o conjunto de enzimas necessárias para a mais simples célula era de uma em 10 [elevado a] 40.000. Visto que o número de átomos no Universo é cerca de 10 [elevado a] 80, radicalmente menor em comparação, argumentou estar diante de um grande absurdo, e comparou aquilo à probabilidade de que “um tornado varrendo um depósito de lixo possa fabricar um Boeing 747 a partir dos materiais lá disponíveis.
Hoyle, contudo, apresentaria argumentos mais incisivos sobre as suposições evolucionárias: lembrou que o homem divergiu do gorila cerca de 7 milhões anos atrás e, nesse tempo, apenas uma única mutação neutra apareceu para fazer a diferença entre as cadeias de alfa-globina do gorila e o homem. Tomando o tempo de geração média de nossos antepassados humanos sendo vinte e cinco anos, e o tempo de geração média dos antepassados do gorila sendo dez anos, a soma do número de gerações humanas e de gerações de gorila que ocorreram desde a divergência há 7 milhões de anos é cerca de 1 milhão. Se a cadeia alfa-globina tinha apenas uma única variação neutra permitida de aminoácidos, a chance de um DNA ter copiado o erro causando uma mudança de qualquer aminoácido específico seria cerca de uma em 1 milhão de gerações.
No entanto, no caso da cadeia alfa, há provavelmente de vinte a trinta alterações neutras possíveis, e qualquer uma delas poderia ter acontecido no total de 1 milhão de gerações desde que o homem e o gorila divergiram na árvore ancestral. A chance de um erro de cópia é, portanto, cerca de vinte a trinta vezes menor do que o que foi calculado, aproximadamente um em cada vinte a trinta milhões por geração. Esta seria uma taxa de mutação demasiada lenta, e deveria ser cuidadosamente trabalhada pelo darwinismo, pois não só seria insuficiente para explicar as mudanças evolutivas que ocorreram, mas também completamente inadequada para plantas e animais, considerando-se intervalos muito curtos. 10 Hoyle conclui afirmando que o mecanismo darwiniano é muito fraco para dirigir a evolução da vida na velocidade em que é observada.”

"Murray Eden
A Biologia Molecular pode muito bem ter nos fornecido o alfabeto desta linguagem, mas é um passo longo para se entender a linguagem a partir do alfabeto. No entanto, uma linguagem tem que ter regras, e estas são as mais fortes restrições sobre o conjunto de mensagens possíveis. Nenhuma linguagem formal atualmente existente pode tolerar mudanças aleatórias em sequências de símbolo que expressam suas sentenças. O significado quase invariavelmente é destruído. Qualquer alteração deve ser sintaticamente legal. Eu presumiria que o que poderíamos chamar de "gramaticalidade genética" tem uma explicação determinística e não deve sua estabilidade à pressão de seleção agindo sobre variação aleatória. 13
Um de seus cálculos mostrou que seria impossível até mesmo para um único pedipar de genes ser produzido por mutações de DNA na bactéria Escherichia coli, 14 o que levaria 5 bilhões de anos para ser produzido. Sua estimativa foi baseada em 5 trilhões de toneladas de bactérias cobrindo o planeta a uma profundidade de quase uma polegada. Em seguida, Eden argumentou sobre a impossibilidade matemática de proteínas se formarem por acaso, ressaltando que a vida não poderia começar por sorteio. Suas argumentações não sustentavam que a evolução é completamente improvável, mas sim que nenhuma teoria existente seria responsável por certas peculiaridades da vida na terra, especialmente o fato de que todos os organismos vivos são compostos de uma fração muito pequena de todas as proteínas possíveis. Eden concluiu que o acaso devia ser posto de lado, mas que isso exigiria um planejamento racional por algum tipo de inteligência. "

"John Lennox
Considera que Darwin foi um gênio e que não há problema com o que ele observou, mas que os evolucionistas se enganam ao acreditar que a evolução é responsável pela origem e por toda a complexidade da vida. Os processos naturais são evidentemente ótimos para transmitir informação, mas são incapazes de criar informação, e então uma inteligência tem que estar envolvida desde o início.
Lennox chama a atenção para a supervalorização da seleção natural, que muitas vezes é considerada como um processo criativo. Isso seria um enorme engano, pois a seleção natural é um processo de eliminação que deixa a prole mais forte permanecer, mas a prole mais forte já deve estar presente, de forma que ela não é produzida pela seleção natural.
A essência da argumentação evolucionista seria então que a seleção natural favorece a prole forte em detrimento da fraca numa situação de recursos limitados, e ajuda a preservar todas as mutações favoráveis, de forma que os organismos que passam por essas mutações sobrevivem, mas os outros são eliminados. Neste ponto, ficaria evidente a insuficiência da seleção natural em explicar a evolução, visto que ela seria inativa em um ambiente onde os recursos são suficientes para todos os organismos.
Nem mesmo a classificação das espécies de modo hierárquico contaria a favor da evolução, uma vez que é possível classificar qualquer conjunto de objetos numa hierarquia, independentemente de sua variação ser ou não ser evolucionária. Por exemplo, os carros podem ser distribuídos numa hierarquia; mas todos os carros têm partes semelhantes porque elas são essenciais para o funcionamento deles e porque eles são construídos de acordo com um projeto comum, não porque descenderam uns dos outros.19
Segundo Lennox, os limites do mecanismo darwiniano seriam determinados principalmente pela biologia molecular. A membrana lipídica de uma única célula contém cerca de 100 milhões de proteínas de 20 mil tipos diferentes, e cada proteína é formada por uma cadeia de 100 a 300 aminoácidos. Além disso, existem 20 tipos de aminoácidos envolvidos na criação de proteínas. Considerando o conjunto de todos esses vinte aminoácidos, um simples cálculo mostra que a probabilidade de se obter 100 aminoácidos na ordem correta de formação da proteína é de 20 [elevado a] -100 . Logo, a probabilidade de uma única proteína se formar por acaso é absurdamente pequena. Segundo os darwinistas, no entanto, a seleção natural por si mesma é responsável por encontrar um caminho mais rápido no espaço das probabilidades, pois funcionaria como uma lei que aumenta as probabilidades para níveis aceitáveis ao longo do tempo geológico. O mais impressionante nisso tudo é que a seleção natural não necessitaria de qualquer informação ou comando externo, embora os neodarwinistas não consigam comprovar nem explicar este potencial do mecanismo darwiniano.
Enfim, se o acaso e a necessidade não conseguem explicar a biogênese, então um terceiro fator precisa estar envolvido: o input de informação. A partir desse ponto, Lennox discutiu a interessante questão do paralelo teórico da informação para a lei da conservação de energia, e assinalou: Há ainda muito trabalho interessante e difícil a fazer nessa área em desenvolvimento. Todavia, pelo menos estamos numa posição que nos permite testar essas ideias em simulações da origem da vida. Pois, se a informação é conservada de algum modo, então podemos logicamente esperar que quaisquer experimentos para simular a origem da vida que alegam obter informação “de graça”, mediante processos puramente naturais, devem, de algum modo, apesar da alegação que fazem, estar contrabandeando aquela informação, que vem de fora.21
Os cálculos matemáticos subjugaram completamente a ideia de que a vida possa ter surgido por meio de um processo aleatório, embora Dawkins tenha dito depois que não é preciso ser um matemático para entender isso. Então ficou evidente que programas de simulação da evolução só funcionariam bem com a adição de algum mecanismo de informação, além da natural necessidade de se estabelecer um alvo a ser atingido no processo. De fato é assim que os simuladores funcionam.
Lennox então argumentou que essas simulações não mostram o que os neodarwinistas afirmam demonstrar, ou seja, que um processo cego, desprovido de inteligência e não dirigido tem o poder de produzir informação biológica.
a modificação de um programa implica aplicar ainda mais inteligência a um artefato projetado de modo inteligente – o programa original. O mais sofisticado programa biomórfico de Dawkins [...] igualmente envolve um princípio de filtração projetado de modo inteligente. Removendo-se o princípio de filtração, o alvo e o macaco chefe, o que temos no fim é uma linguagem sem nexo.23"


8 - Os Matemáticos da Evolução - Complexidade Especificada - Josiney Alves de Souza



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